Valor Econômico

13/06/2003

CulturaBrasil/Reportagem de capa Pesquisador da vida dos brasucas em NY diz que país passou a exportar cidadãos que hoje estão na mira do governo americano.

A imigração invisível

Por Jadyr Pavão, para o Valor

Segundo estimativas extra-oficiais que circulam entre acadêmicos e analistas, haveria hoje entre 3 e 3,5 milhões de brasileiros vivendo fora de casa. No Japão estariam pelo menos 254 mil enquanto nos Estados Unidos, a cifra atingiria 1,5 milhão de pessoas, sendo que destas cerca de 70% seriam imigrantes ilegais. É possível que um pequena porção consiga, como se diz, "fazer a América", mas essa não é a única questão em jogo.

Estudo do historiador José Carlos Sebe Bom Meihy, professor aposentado da Universidade de São Paulo, sobre a vida dura dos brasileiros que tentam a sorte em Nova York aponta algumas questões inquietantes sobre a "imigração brasileira". Sim: "imigração brasileira". Depois de ouvir mais de 600 brasileiros na "capital do mundo", ele defende que se reconheça que o Brasil vive um fenômeno migratório. Desta vez, porém, a porta de saída do país é que está aberta, para dar passagem a seus cidadãos.

O estudo deverá ser publicado no segundo semestre, com o título "Brasil fora de si"; em 2004, o livro sai nos Estados Unidos pela Wisconsin University Press.

Aos olhos do pesquisador, essa imigração ainda não foi identificada e devidamente reconhecida por autoridades e analistas. Não que ela não produza barulho e sofrimento. Ao contrário, os relatos reunidos pelo professor estão repletos de descrições de dificuldades, superação e até tragédias.

Segundo o professor, o Itamaraty conta 800 mil brasileiros nos EUA - contra os cerca de 1,5 milhão com que trabalha Sebe. "Os governos brasileiros não têm estabelecido uma política que dê visibilidade ao caso: afinal, quantos são os brasileiros que estão fora do país?", indaga. A exceção, diz, foi a "Carta aos brasileiros fora do Brasil", apresentada pelo então candidato Luís Inácio Lula da Silva em 2002. Nela, avalia Sebe, o atual presidente reconhecia o problema.

"Há resistência em se encarar o tema porque a constatação de que há tanta gente fora levará à conclusão de que toda a política econômica recente esteve errada", diz. "Afinal, por que essas pessoas teriam deixado o país e do que estariam vivendo se estivessem aqui?"

Quem deixa sua terra tem lá seus motivos - e essa é a principal preocupação do pesquisador. Segundo as entrevistas, a vida tem sido dura com os brasileiros em Nova York. Os imigrantes se submetem a atividades braçais, por vezes humilhantes, sem contrapartida senão a remuneração que lhes garante a sobrevivência e possibilite um mínimo de consumo. É o caso da mineira que se declarou feliz por comprar uma TV em cores com o suor de três dias de faxina. "É a satisfação de quem não tinha nada", analisa Sebe.

Esse é um índice da mudança de perfil dos brasucas que partem para os EUA. Antes, nos anos de 1970 e 1980, saíam do Brasil pessoas das classes alta e média, em busca de estágios, contratos de trabalho ou aperfeiçoamento de inglês. Em tempos mais recentes, porém, as classes mais baixas passaram a se lançar à aventura. "Muitas vezes, são pessoas que nunca haviam saído de suas cidades, sequer sabiam onde ficam os Estados Unidos, ou qual a diferença entre ´New York´ e ´Newark´, e que precisam resolver problemas econômicos prementes", diz ele.

Os riscos e dissabores dessa aventura das classes baixas em Nova York são muitos, a começar pela situação ilegal em território estranho. Outro ponto importante que é que, dada a total precariedade de recursos, eles pouco se integram aos círculos de americanos ou mesmo de brasileiros. Sem formação, nem chegam a aprender o idioma inglês. É o caso do engraxate Alexandre Cezar, de 27 anos. A única frase que ele dirige a seus fregueses é "I don´t speak english" (não falo inglês). O mesmo acontece com os que atuam como babás ou na construção civil.

Uma cena especialmente dramática é a da solidão. São muitos os depoimentos que revelam a ausência de companhia. Ou seja, não existe a tão famosa comunidade solidária de brasileiros de Nova York. Cada um deve resolver tudo sozinho. "Isso ocorre porque as pessoas vão para lá para resolver problemas pessoais", diz o pesquisador. "Então, não se forma esse espírito de comunidade."

Freqüentes são os relatos de furtos entre brasileiros, abuso e violência. A carioca Zoe, de 29 anos, recém-chegada a Nova York e sem plano de sobrevivência, topou nas ruas de Manhattan com um brasileiro. Depois de levá-la para casa, o matuto prometeu um trabalho e sumiu com o passaporte da moça por um ano. Zoe teve todo tipo de problemas.

Há casos também de mulheres que são levadas para lá por apenas alguns meses. Por um salário de R$ 1 mil ou R$ 1,5 mil, elas servem de domésticas, mas têm horários e atividades rigidamente vigiados. Até mesmo folgas e saídas noturnas são controladas. Há ainda as go-go-girls, jovens que começam como dançarinas de boates e acabam no submundo das prostituição e drogas.

Apesar do drama de tantos brasileiros, muitos firmam compromissos que os fixam à terra. Isso ocorre principalmente de duas formas, segundo o pesquisador. Há casos em que os filhos dos imigrantes começam a estabelecer laços afetivos e institucionais a partir da escola. Outras vezes, ocorre de um membro da família tentar a aventura primeiro e, em seguida, colocar um cunhado, um irmão ou outro parente na mesma trilha. Em pouco tempo, há uma dependência grande demais para ser rompida.

A vida deles vem mudando desde o 11 de setembro. Com os ataques terroristas, imigrantes se tornaram alvo das autoridades americanas. A primeira medida foi reduzir o tempo de permanência dos vistos de entrada nos EUA. Isso teria feito crescer o números de ilegais brasileiros lá, avalia Sebe, já que, passados 30 dias o turista se torna ilegal.

O tratamento não é exclusivo a brasileiros. Vale para todos os estrangeiros. "A política americana tem o objetivo de dificultar a entrada e facilitar a saída", diz Sebe. Segundo ele, os brasileiros devem cada vez mais se estabelecer nas cidades médias, como Atlanta, usando Nova York apenas como ponto de chegada. "Lá têm uma imagem melhor e ficam distantes dos olhares oficiais", avalia. Mais uma vez, os brasileiros driblam as dificuldades que encontram no caminho.