Littera
 

Três temas em um livro

15-06-2005 17:36:30

SÍRIO POSSENTI
especial para a PrimaPagina

 

A Parábola Editorial acaba de publicar mais um livro sobre questões de língua portuguesa. É mais um na direção de consolidar um bom catálogo à disposição dos que se interessam pelo tema. Desta vez, trata-se de um livro de autoria de Maria Marta Pereira Scherre, uma reconhecida sociolingüista brasileira, estudiosa de fatos relativos ao português, especialmente do Brasil, conhecida na “comunidade” dos especialistas brasileiros. Obviamente, não é conhecida do jornalismo cultural e científico, porque este, por mais avançado e atento que seja quando se trata de física e genética, e, de outro lado, por mais disposto que esteja a falar de sociologia, demografia, ciência política, psicanálise e quejandos, pensa que uma língua se resume ao que está na versão escolar e simplificada das gramáticas e nos dicionários, lidos como se fossem livros sagrados (o que me faz desconfiar cada vez mais quando cobre outros campos). Alguns culpam os lingüistas pela deficiência desta cobertura, mas eu discordo. Acho que a questão da língua é mesmo diferente das outras, e essa quase idiotia que caracteriza nossa intelligentsia ataca também outros países. Basta ver o que diz Steven Pinker, em seu Instinto da linguagem, quando se refere ao colunismo lingüístico americano.

 

O livro de Marta Scherre tem um título pouco feliz, eu acho, mas pode acontecer que isso lhe dê sorte. Doa-se lindos filhotes de poodle pode fazer com que chame a atenção de visitantes de livrarias que estão atrás de outras curiosidades (com o avanço dos pets, o risco aumenta...), principalmente se os funcionários não forem instruídos ou se se deixarem enganar pelos títulos (o que já fez com que Raízes do Brasil tenha sido posto nas estantes de medicina popular e Dialética do concreto no meio de pomposos livros de engenharia). Talvez o subtítulo — variação lingüística, mídia e preconceito — acerte a vida entre livro e leitores, no entanto. Tomara. Mas não seria mau se um interessado em cães comprasse o livro e descobrisse que há outras coisas entre o céu e a terra além dos caninos.

 

O título indica um dos temas do livro, a questão das construções que na escola aprendemos a chamar de passiva sintética. O tema serve de mote para a autora defender teses fortes da sociolingüística — especialmente, a de que não há erros, mas sim variantes lingüísticas, gramaticais. No caso, o tema serve muito bem para caracterizar a forma como se estuda língua em nossas escolas e como esse discurso que elimina todos os debates — como duvidar do que é certo e do que é errado em língua? — se espalha pela sociedade, pelo menos naquela parte dela que conta em debates mais ou menos pontuais.

 

É que Marta Scherre debate o caso à luz dos fatos, à luz das diversas análises que o fenômeno já mereceu, mas também elegendo uma voz adversária, o ponto de vista que pode ser chamado de conservador, que se caracteriza, entre outras coisas, por ser bastante ignorante no próprio terreno em que é especialista. A adversária que personifica esse ponto de vista no debate de Marta Scherre é Dad Squarisi, que mantém uma coluna sobre língua portuguesa no Correio Braziliense, na qual não apenas defende o uso de uma certa norma lingüística, o que é evidentemente legítimo, mas comete dois equívocos fundamentais: a) trata em termos absolutamente grosseiros — como se fosse uma colunista de moda falando dos que não se vestem bem — os autores de construções que considera simplesmente erradas, sintomas de decadência (daí o tema do preconceito); b) revela profundo desconhecimento dos próprios pontos de vista que defende, ou, pelo menos, das autoridades que supostamente são sua garantia.

 

Que não leia pesquisas recentes, entende-se, embora seja, ou tenha sido, professora do Instituto Rio Branco (pela amostra, diplomacia, para ela, é conhecer nós de gravata). Mas que leia tão mal as gramáticas tradicionais é bem mais grave (pensando melhor, pode ser que não leia nenhuma, que nunca tenha lido, que nem as conheça, que apenas use apostilas com as regras simplificadas para seu uso social). Em artigos que Marta Scherre cita, a leitura que Dad Squarisi tenta exibir das gramáticas é absolutamente lamentável.

 

Voltando ao livro, que é o que importa, ele se compõe de três estudos. Um trata da tal passiva sintética (Marta Scherre cita excelentes gramáticos que defenderam pontos de vista diversos daquele que a escola consagra; meu favorito, no caso, é Said Ali), no qual a autora mostra, com dados, que a norma lingüística do português vai marchando firmemente na direção de “normalizar” as construções, acabando aos poucos com o verbo no plural (o exemplo do título é um entre muitos). Ou seja, o “se” de Doa-se filhotes ou de Vende-se flores é exatamente como o de Precisa-se de serventes, isto é, é um sujeito impessoal, não um marcador de passiva.

 

Outro trabalho estuda a questão do imperativo, mostrando que o quase desaparecimento das formas que recitamos na escola quando papagaiamos verbos é, por um lado, um fato, e que, por outro, a defesa intransigente de que se trata de um erro, de decadência da língua etc., é uma grossa bobagem. Nenhuma gramática — e nenhum de seus repetidores — tenta explicar porque na sociedade brasileira se prefere “pedir”, ou fazer de conta que se pede, ao invés de mandar...

 

Finalmente, o primeiro trabalho, um pouco mais genérico, se destina a discutir a questão do preconceito lingüístico, ou seja, os termos em que se analisa, em especial na imprensa, a questão dos “erros” de português. Os dados básicos são do campo da concordância. É nos anexos desse capítulo que o leitor se surpreenderá com a grossura de Dad Squarise (pouco diplomática...), com sua soberba e com a ignorância dos temas de que trata. Verá também que ela escreve muito mal, que seu estilo é primário, que, se precisasse de elegância e de capacidade de argumentar para viver, estaria certamente em dificuldades.

 

Eu já tinha lido algumas colunas de sua lavra. Uma até foi meu tema aqui mesmo, em 2001, quando estive em Goiás. Mas ler várias colunas dela no mesmo dia é uma experiência realmente insuportável. Dad Squarisi faz o Prof. Pasquale perecer um sábio... Marta Sherre fez muito em dar-lhe umas palmadas.

 

_________________________________________________
Littera, do latim, letra, carta

 

Sírio Possenti é professor de Lingüística no Instituto de Estudos da Linguagem da Unicamp e autor de Os humores da língua e A cor da língua e outras croniquinhas de lingüista(Mercado de Letras – 0xx19 3241-7514) e de Os limites do discurso (CRIAR Edições – 0xx41 573-0456)