"Conversas com Tradutores - Balanços e Perspectivas da Tradução". Ivone C. Benedetti e Adail Sobral (orgs.), Parábola Editorial, 216 pp. R$ 25

Reunião de entrevistas com 19 tradutores das mais diversas áreas, que estabelece uma visão panorâmica da tradução no Brasil. Entre os temas abordados estão a formação do tradutores, sua relação com a sociedade, o diálogo entre teoria e prática.

(Jornal Valor Econômico - Caderno Eu& - 9, 10 e 11 de janeiro de 2004 - sessão Livros - por Alexandre Agabiti Fernandez)

 

EM CADA GUARDADO UM GRANDE ACHADO

 QUARTO DE BADULAQUES . Rubem Alves. Parábola Editorial . 176 pp. R$19,00.

Mestre Rubem Alves dispensa apresentações . Com muitos títulos publicados, este mineiro, que é mestre em teologia, psicanalista e professor livre docente da Unicamp, além de escritor , jornalista e poeta, tem um grande e visível mérito: escreve simples, com sensibilidade e sapiência. Daí, seu imenso leitorado, brindado recentemente com o livro “Fomos Maus Alunos ” ( em parceria com Gilberto Dimenstein).

Badulaques, palavra com muitos significados, aqui surge na acepção de “coisa miúda e de pouco valor”. De pouco valor, aparentemente, pois Rubem Alves faz referência a um quarto de badulaques, no sobradão colonial do seu avô, onde se encontravam quinquilharias, figuras, brinquedos e bagatelas várias. Ao longo do tempo, o que não deu para ser transformado em crônica ou ensaio foi formando um quarto de badulaques entre guardados “e memorizados” na obra do autor. Agora, ele resolveu publicar estes pequenos e maravilhosos badulaques — “uma série de coisinhas, dicas, pitadas, informações, pensamentos avulsos”, muitos de séria reflexão e outros extremamente divertidos, em forma de minicrônicas, ao lado de aforismos e sentenças insólitas.

E o quarto de badulaques relembra questões sempre vivas: o futebol, a religião, o divórcio, a economia, a família, o terrorismo, o negócio das armas, os sem-terra, a velhice, os vestibulares, Deus, Big Brother, democracia, poesia e política, casamentos e cavalos (em imperdível metáfora) e um sem-número de “penduricalhos pensantes .

Ao tratar de casamento, fazendo referência ao princípio da separação de bens, Rubem Alves sai com esta: “Mas falta ainda um passo para que a felicidade dos cônjuges seja completa: a criação do casamento com separação de males”. Vale conhecer o que ele diz sobre o perdão: “Não sei se se deve perdoar sempre. Como perdoar o torturador? Como perdoar o adulto que espanca uma criança? Como perdoar a inquisição, os campos de concentração, a bomba atômica, os homens públicos que se enriquecem às custas do dinheiro do povo que sofre e morre? Quem perdoa tudo é porque não se importa com nada”.

“Amamos não a pessoa que fala bonito, mas a pessoa que escuta bonito. A arte de amar e a arte de ouvir estão intimamente ligadas. "Não é possível amar uma pessoa que não sabe ouvir” — eis o que preceitua um dos “badulaques” do autor, que assim conclui: “Não amor que resista ao falatório”. E o ato de ler? Ao falar em “Big Brother”, Rubem Alves esclarece sua origem: “era um ditador supremo que fiscalizava pessoas por circuitos de TV, prendendo-as pelo que diziam, no livro 1984, de Orwell. Um nome tétrico, nada merecedor de risos. Mas quem Orwell. Ou melhor: quem ?”

Os “badulaques” de Rubem Alves, nascidos de sensível inteligência, trazem uma dispersão à Baudelaire — nos seus célebres Escritos Íntimos” — e confissões à Herberto Salles, no quase esquecido “SubsiDiário”, com toques geniais de referências a tanta gente importante (Carlos Gomes, Fernando Pessoa, Brahms, Dostoievski, Jesus e, claro , Nietzsche.) Um pequeno-grande livro , para ser lido, relido, treslido...

(O Fluminense, Niterói, 13/01/2004 por Roberto Santos)

 

Littera
 

Um livro para desasnar

04-05-2004 19:25:02

SÍRIO POSSENTI
especial para a PrimaPagina

 

Perini é capixaba e trabalha em Belo Horizonte. Atualmente, na PUC-Minas. Já foi professor na UFMG, na Unicamp e em duas universidades americanas. Publicou muitos artigos e uma boa quantidade de livros. Sua produção abrange desde questões de gramática até de texto (leitura). Além de cobrir várias áreas, destina-se a leitores diferentes. Isto é, Perini tanto escreveu e escreve textos mais técnicos quanto se dedica ao que se pode chamar de divulgação (emprego esse torneio porque falar de divulgação de lingüística pode parecer estranho).

 

No ramo da dita divulgação, publicou Sofrendo a gramática em 1997, pela Editora Ática, um livro que eu sempre recomendo a alunos e professores. Legível para leigos em lingüística, apresenta um conjunto de teses e de fatos que abalam o leitor que pensa que língua é o que se sabe dela depois de alguns anos de escola e de gramatiquinhas. Agora, lança outro livro do gênero, A língua do Brasil amanhã e outros mistérios, pela Parábola Editorial.

 

Trata-se de onze ensaios sobre temas diversos: o futuro do português no Brasil (Perini, evidentemente, não adere às teses leigas sobre a decadência de nossa língua); a relação entre língua e visão de mundo, questão extraída de um tópico da biografia do poeta latino Ênio (que falava três línguas e dizia que tinha três almas); a etimologia popular, com exemplos interessantíssimos; temas de pesquisa (que demonstram que pouco sabemos ainda sobre a língua que falamos, a despeito de se pensar que as gramáticas dizem tudo sobre tudo); a primeira gramática do português, datada de 1536, de autoria de Fernão de Oliveira; sobre fala e escrita, um tema atualíssimo e mal compreendido; sobre cultura e comunicação, tendo como pretexto uns versos de Horácio (valendo para qualquer leitura, a rigor); outro ensaio histórico sobre o surgimento das gramáticas, com ênfase no trabalho de Alexandria e no de Panini, na Índia, bem anterior; dois ensaios sobre mente e linguagem e, finalmente (não nessa ordem), um desfile de problemas de tradução devidos a fatores diversos (a meu ver, o ensaio menos interessante, porque perde a oportunidade de ir mais fundo na explicação dos erros).

 

Um livro como esse tem muitas utilidades. Serve para desasnar leigos e pretensos especialistas em questões de linguagem que ultrapassam as regras etiquetais de correção e também para dar mais substância aos profissionais que precisam saber mais sobre línguas. Perini comenta, no prefácio, que Sofrendo a gramática, destinado a leigos, acabou em cursos de letras — o que tanto pode indicar que o livro é mais do que ele imaginava quanto que os cursos de letras não estão lendo materiais mais indicados para esse público. Desse livro, diz que é para ser lido enquanto se espera o ônibus ou no fim do dia, “quando não tem nada melhor na TV”. Mas é claro que isso não restringe o universo dos leitores. Perini surpreende sempre pelos exemplos agudos que apresenta, e que, em geral, implicam tantos outros problemas, ou seja, potenciais projetos de pesquisa, desafios para quem acha que sabia tudo. Por isso, se o livro for para as faculdades, ele pode muito bem incentivar outras leituras, o que a divulgação sempre requer. Assim, cumpriria dois papéis.

 

É exatamente um livro de divulgação, eu diria. Minha avaliação é que Perini opera nesse gênero de modo exemplar. Mostra que a divulgação funciona melhor quando um profissional faz o serviço do que quando um generalista decide estudar um tanto de uma disciplina para, em seguida, tornar-se divulgador. Nesse caso, quase sempre as relações entre os cientistas e os divulgadores azedam: aqueles se sentem traídos, esses acham que precisam “traduzir” o ilegível — e que o fazem bem. Acreditam que há um conteúdo que pode ser integralmente levado de um texto a outro...

 

O que Perini faz pode certamente produzir controvérsias. Mas elas são as mesmas que ocorreriam se ele escrevesse papers sobre esses temas. Elas não decorreriam de “simplificações” e “equívocos”, mas de pontos de vista diversos ou de análises alternativas.

 

Que venham outros livros assim. De preferência, do mesmo autor.

 

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Littera, do latim, letra, carta

São Paulo, domingo, 30 de maio de 2004

Baseado em entrevistas e estatísticas, Brasil fora de si, do historiador José Carlos Sebe Bom Meihy, apresenta um perfil dos brasileiros radicados em Nova York

Emigrantes na colônia penal

Gerald Thomas
especial para a Folha, de Nova York

Emigração na terra dos emigrantes é um assunto complexo. Principalmente porque quem veio pra cá assim o fez, muitas vezes, nesse último século e meio, por causa de perseguições políticas em seus países nativos ou por falta de comida ou por questões de superpopulação e até em busca de um sonho qualquer que lhe foi vendido ao longo dos tempos. É mais ou menos aí que encontramos esse autor e seus brasileiros "sofredores". O autor de "Brasil Fora de Si" não deixa muito claro o propósito do livro. Ou, se deixou, fui eu que não o entendi. Mas, em linhas gerais, o que se entende é que o emigrante brasileiro é um grande "sofredor" e que pega pesado aqui. Pena que o pesquisador (que teve um ano pra fazer sua pesquisa, alojado na Universidade Columbia) não tenha andado um pouco no Lower East Side e aprendido um pouco sobre os lituanos que aqui aportaram no início do século, para saber o que era uma barra-pesada. Ou, pra não ir muito longe no tempo, bastasse dar um pulo ao sul de Canal Street pra ver o que os chineses passam, que até hoje chegam em contêineres de navio "camuflados" (muitos deles morrem no meio da viagem, assim como acontecia com os escravos durante a travessia), no porto de Elizabeth, Nova Jersey, ou como vivem todos os mexicanos que escapam da Califórnia, onde são verdadeiramente caçados, e rumam para o norte e acabam aqui em Nova York, fazendo toda sorte de serviços, esses sim, "pesados"!

Velhos clichês
Bem, mas a proposta evidentemente era sobre os brasileiros. O autor escreve em tantos tons, pinta com tantas cores, que não se pode dizer que o livro é desinteressante de todo. Mas em sua infeliz introdução, "Pressupostos de uma Emigração", já recebemos uma pitada do que virá pela frente, ou seja, os velhos clichês sobre o eterno amor e ódio pelos EUA. E dá-lhe clichê sobre "the American dream", que, como não poderia deixar de ser, descreve sua infância como sendo pontuada por músicas de Sinatra ou produtos americanos que "todos nós queríamos ter". Meu Deus, será que ninguém consegue mais escrever uma linha original nos dias de hoje?
Talvez não. Mas não importa. Em questão está um livro (talvez o único de sua espécie, será?) com estatísticas, já que José Carlos Sebe Bom Meihy entrevistou centenas de sofredores, lavadores de pratos, "strippers", prostitutas, garçons em Manhattan, em Newark e outras redondezas, guiado por quem verdadeiramente "entende" da coisa. Será?
Citando Luiz Gonzaga Jr, Cazuza e outros compositores, para colocar um tom "lírico" no livro, o autor conduz sua estatística sempre para o lado da solidão. Mas há que perguntar sempre se esses brasileiros que estão aqui estão aqui nesse "sofrimento" todo por questões masoquistas.
E a pergunta que me vem à cabeça: por que, diabos, não voltam para o Brasil?
Ou será a falta de um enorme elemento cultural que não os deixa se integrarem ao resto da comunidade? É isso! Os brasileiros emigrantes não foram capazes de criar uma infra-estrutura (por questões de imaturidade cultural) como os poloneses, como os russos e tantos outros que nada sofrem, morando aqui.
A condescendência do autor é muito irritante. No entanto, para os que se interessam pelos números, a estatística e os gráficos estão lá, todinhos no final. Deve dar uma boa tese para quem se interessa, talvez até uma boa palestra. Como livro, fiz um esforço cão pra tentar virar as páginas e só o fiz por obrigação, por causa dessa resenha -e nem isso estou conseguindo fazer direito. Não acho que ele tenha conseguido espelhar direito o espírito brasileiro daqueles que moram aqui. Afinal, a escolha de quem entrevista é arbitrária. A pergunta é feita de forma subjetiva e, conseqüentemente, a resposta que se recebe também o é.
Mas como minha amiga e excelente autora Tereza Albues ("O Berro do Cordeiro em Nova York") era citada no índice, fui avidamente procurando a página dela (não achei), passando por todas as citações de mais e mais compositores, como Edu Lobo, Chico Buarque e tantos outros, e cheguei ao final exausto.
Enfim, aqui está. Não é uma resenha ou crítica. Acho que alguém mais competente do que eu deveria fazê-la. Alguém especializado em "melancolia e estatística", se é que tal mescla existe na USP ou em qualquer outra universidade. Tal pessoa seria a mais indicada para fazer a crítica apropriada, já que "Brasil Fora de Si" está tão fora de mim que eu não o li, propriamente. Quer dizer, li sim, mas as palavras melancólicas não estavam embasadas em nenhum contexto histórico. E não colocar Nova York em contexto histórico, quando se fala em emigração, é como falar em feijoada sem mencionar a couve, a farofa e a laranja fatiada que cercam o feijão preto.
 


Gerald Thomas é dramaturgo e diretor de teatro.
 


Brasil fora de si 384 págs., R$ 39,00 de José Carlos Sebe Bom Meihy. Ed. Parábola (r. Clemente Pereira, 327, CEP 04216-060, São Paulo, SP, tel. 0/xx/11/6914-4932.)
 

São Paulo, domingo, 06 de junho de 2004

+ réplica

Historiador rebate as críticas a seu livro "Brasil fora de si - Experiências de Brasileiros em Nova York" feitas pelo diretor de teatro Gerald Thomas

Apenas vidas de pessoas comuns

José Carlos Sebe Bom Meihy
especial para a Folha

Ao contrário das dificuldades de leitura provocadas pelo meu livro "Brasil Fora de Si - Experiências de Brasileiros em Nova York", me foi fácil ler as palavras do teatrólogo Gerald Thomas em seu esforço de resenha intitulado "Emigrantes na colônia penal" estampada no Mais! (de 30 de maio). Aliás, nem precisaria lê-las para saber sua posição e desfile de mesmismos mal-humorados e sedentos de surpresas diante dos dramas de cerca de mais de 1 milhão de brasileiros que vive nos EUA. Em todo caso, cabe a mim como autor contestar os clichês amontoados, sem critérios, condição analítica ou bom senso medianos. E começo pelo seu argumento central, a (falta de) originalidade. Certamente as revistas acostumadas com os ricos e famosos, triunfantes giseles ou fofocas de bastidores dos elegantes corresponderiam ao alcance de promotores de espetáculos às vezes circenses e até engraçados. Ademais, a originalidade reclamada não está também na exibição do show da pobreza ou na melancolia de viver em uma cultura sem renunciar a outra, original. Pelo contrário, situa-se na junção de histórias de pessoas comuns que se perdem em um coletivo árido e de difícil aceitação histórica. O enredo coletivo dos brasileiros tem que ser considerado em sua autonomia, e, para não mesclar alhos com bugalhos, não promovi concursos de infelicidades grupais. O livro não pretende ser engraçadinho, encantador ou mesmo de entretenimento. Aliás, até me preocupa o fato de o resenhista dizer "que não é desinteressante de todo". O foco pretendido por mim foi a denúncia de um fenômeno grave, com cifras surpreendentes, pois hoje podemos estar na casa de 3 milhões de brasileiros fora do país. A mensagem, portanto, é política. A proposta é focalizar um agrupamento que, ao contrário da indicação do sr. Thomas, não se ajusta pela "falta de um enorme elemento cultural que não os deixa se integrarem ao resto da comunidade". Não. É exatamente o inverso, é a existência de laços não desmanchados com o Brasil que não lhes permite gerar uma "comunidade". Convém lembrar que esse é um dos pontos mais debatidos do livro.

 


O foco do livro é a denúncia de um fenômeno grave; a mensagem, pois, é política




O meu objetivo, não entendido pelo sr. Thomas, foi demonstrar a intimidade da vida dos brazucas, de pessoas pobres, que padecem as dificuldades de ajustes, as agruras para sobreviver diante de um fenômeno que implica romper com um pressuposto histórico que exibe o Brasil aberto a receber, e não a exportar, gente. E isso não é tão óbvio, infelizmente. Como o enfoque são os brasileiros e porque o livro foi escrito como denúncia endereçada ao conjunto de nossa sociedade, não cuidei dos poloneses, russos, lituanos e demais grupos que buscam refúgio nos EUA ou que "aportaram no Lower East Side... no início do século".

"Reserva de memória"
Nem caberia, pois, para usar a mesma metáfora do comensal sr. Thomas, não se trata de uma feijoada com ou sem "couve, farofa e laranja fatiada que cercam o feijão preto". A jovialidade do "nosso" processo emigratório derivada dos anos de ditadura -portanto, ainda recente- não poderia ser considerada além de suas legítimas balizas cronológicas. Até porque o livro é sobre o fluxo brasileiro, e não sobre o contexto histórico da cidade de Nova York, não caberia inverter a situação, como propõe o irritado cidadão que adequadamente se reconhece fora de si.
As citações musicais que servem de epígrafes não têm intenção lírica. Em se tratando de análise de memória e identidade, as sugestões musicais arroladas cumprem o papel de "reserva de memória". Por certo, seria necessária alguma fineza intelectual para o entendimento desse recurso. O mesmo se diz dos elogiados gráficos apenas usados como apêndice. Porque o sr. Thomas cita minha instituição, a USP, e a envolve na raiva incontida de não pertencer a corpo nenhum, se lhe recomenda uma volta aos bancos acadêmicos para que aprenda algumas regras e normas de responsabilidade profissional.
Por fim uma concordância ou, melhor, duas: "Não é resenha ou crítica" e "acho que alguém mais competente do que eu deveria fazê-la". Concordo.
 


José Carlos Sebe Bom Meihy é professor no departamento de história da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP. É autor de, entre outros, "Manual de História Oral" (ed. Loyola).
Brasil Fora de Si 384 págs., R$ 39,00 de José Carlos Sebe Bom Meihy. Ed. Parábola (r. Clemente Pereira, 327, CEP 04216-060, São Paulo, SP, tel. 0/xx/11/6914-4932.)