São Paulo, segunda-feira, 15 de março de 2004
 
 
  ESTANTE

A língua brasileira pensada por extenso

LUÍS AUGUSTO FISCHER
COLUNISTA DA FOLHA

Se você está na escola, especialmente no ensino médio, certamente já deve estar enlouquecido com a necessidade de aprender a escrever a redação de ingresso para a universidade. Certo? Aquelas dúvidas todas sobre o que pode e o que não pode contribuem para que as aulas de redação, de língua e de literatura despertem mais interesse.
A má notícia é a seguinte: realmente é difícil escrever aquele texto que você quer e precisa escrever. É preciso muito treino, muita atenção ao modo como os melhores fazem e também muita reflexão. Não tem mágica.
Um dos temas sobre os quais vale a pena pensar é justamente a língua. Esta mesmo que eu estou usando agora, que você usa para fazer tudo o que faz diariamente. Língua que, do ponto de vista de sua história e de suas regras, traz alguns problemas, digamos, filosóficos. O português que falamos aqui é igual ao de Portugal? E precisa ser? A língua que se usa cotidianamente pode entrar na redação escolar? A língua dos escritores deve ser o modelo? Um bom guia para esse debate é "A Norma Oculta - Língua e Poder na Sociedade Brasileira", de Marcos Bagno. Um texto legal de ler e ótimo para pensar.

A Norma Oculta - Língua e Poder na Sociedade Brasileira
Autor: Marcos Bagno
Editora: Parábola Editorial (tel. 0/xx/11/ 6914-4932)
Quanto: R$ 12

 

 

Ideologias linguísticas
"Regras Práticas para Bem Escrever" e "A Norma Oculta" adotam
posições opostas sobre o português

Sírio Possenti
especial para a Folha

Desde que o mundo é mundo, o outro estrangeiro, pobre, jovem
é considerado bárbaro, isto é, o que não sabe falar. Alguns
pensam que são os representantes do bom gosto e da razão,
elegem profetas que, contudo, não seguem. Outros, por mais
que falem, acreditam (foram levados a acreditar) que não
sabem fazê-lo. "Regras Práticas para Bem Escrever", de
Laudelino Freire, e "A Norma Oculta -Língua & Poder na
Sociedade Brasileira", de Marcos Bagno, são livros que tratam
dessas questões e defendem discursos opostos. O primeiro
combate "o desamor da língua", já que "reduzidíssimo é o
número dos que lhe não são indiferentes". Basicamente, contém
97 dicas (o autor protestaria contra essa palavra) que, ao
contrário do que o título pode sugerir, servem apenas
para "escrever correto". Sua hipótese é que se chega a isso
com algum amor à língua, a leitura cotidiana de seu "vade
mecum" e a frequentação de uma lista de autores -"os livros
que enumero". O que mais chama atenção no pequeno livro é
que: a) segue as regras que propõe (diferentemente dos que
têm as mesmas concepções); b) defende posições e estruturas
discutíveis (o francês é língua "diversíssima da nossa"; a
ordem portuguesa seria VSO [verbo, sujeito, objeto]; passivas
se fazem com "de", e não com "por"); c) contém equívocos
banais de análise ("passar" seria objeto em "Eu vi passar
dois brinquedos" -ora, o objeto é claramente a oração "passar
dois brinquedos"). Trata-se, assim, de excelente documento de
época (década de 1920), tanto sobre a representação da língua
quanto da precariedade da teoria.

Norma imaginária
O livro de Bagno vai na direção inversa e também o faz na
teoria e na prática. Combate o excessivo conservadorismo, por
exemplo, e adota conscientemente construções como "será que
tem algum jeito de resolver isso?" e "retiraram ela da vida
social" -o que está longe do suposto "vale tudo". Defende que
a chamada norma culta é mais imaginária que real (daí o
jogo "norma oculta/culta"); analisa afirmações conservadoras
na mídia sobre "língua correta" e as avalia com critérios das
teorias variacionistas; apanha os críticos "errando", o que
mostra que a língua é variável para todos os falantes e que
certos juízos revelam mais preconceito que saber. Apresenta
argumentos factuais sobre mudanças históricas de nossa língua
(uma comparação entre os preceitos de Laudelino Freire e
a "gramática" de Antonio Olinto, que o apresenta -e reedita-,
valeria a pena). Um dos fulcros do livro é a discussão sobre
norma (culta, erudita), prestígio, estigma etc., que poderia
parecer terminológica, mas que de fato é teórica e ideológica
ao mesmo tempo. Por fim, vale destacar comentários a "Modern
Portuguese - A Reference Grammar" (Yale University Press), de
Mario A. Perini, que apresenta a estudantes estrangeiros o
português brasileiro de hoje. Bagno reivindica, coerente com
sua posição neste e em outros trabalhos, uma gramática assim
para os brasileiros. Os dois livros retomam doutrinas
efetivamente opostas, nos fatos e na concepção do que
seja "norma padrão". Tal repetição não os desmerece. O
enunciado é raro, como disse Foucault, e o que importa é
compreender por que livros assim aparecem ou reaparecem. Uma
hipótese para o caso: também no campo das ideologias
(linguísticas) há dois Brasis, e, nos últimos tempos, temos
assistido a um reaquecimento de posições conservadoras e ao
crescimento e alguma divulgação de estudos do português do
Brasil "como ele é".

Ponto fraco
Há algumas décadas, o alvo de Freire eram apenas falantes
supostamente desleixados. Hoje, sua concepção enfrenta outras
teorias sobre o que seria saber falar e sobre o português do
Brasil. Um livro como o de Bagno, pela teoria adotada, pega
os adversários em seu ponto mais fraco, ao mostrar que o
português ao qual dizem que são devotados não é o que eles
mesmos praticam (nenhum brasileiro culto será adepto da ordem
sintática proposta e empregada por Freire em casos
como "quando de gramática se não faz caso" e "e a linguagem
em que se ela vaza"). Línguas mudam. E assim os padrões. É
principalmente nesse confronto que os livros fazem sentido,
não tanto por eventuais qualidades ou defeitos.
Seria interessante que a polêmica se tornasse mais conhecida
e chegasse à escola, aos meios de comunicação e aos cidadãos
cultos em geral, que, a rigor, desconhecem solenemente, em
mais de um sentido, um dos lados da controvérsia.