Jornal do Brasil - Caderno Idéias - 4 de setembro de 2004 ( Na versão impressa e online)
 

Em Brasil fora de si (Parábola, 384 páginas, R$ 39), o historiador e professor aposentado da USP José Carlos Sebe Bom Meithy mapeou os principais dilemas e as principais conquistas dos ''brasucas'', brasileiros que moram em Nova York.

 

''Muitos 'brasucas' endossam política de Bush''

Historiador revela os segredos da vida dos brasileiros que moram em NY
Paula Barcellos
Especial para o JB

A maior colônia de brasileiros fora do país acaba de ganhar uma análise especial. Em Brasil fora de si (Parábola, 384 páginas, R$ 39), o historiador e professor aposentado da USP José Carlos Sebe Bom Meithy mapeou os principais dilemas e as principais conquistas dos ''brasucas'', brasileiros que moram em Nova York. Durante 15 meses, o autor morou na Big Apple e realizou mais de 700 entrevistas. Mas o livro, na verdade, é resultado de cinco anos de trabalho, dedicados, quase ininterruptamente, à pesquisa.

O fato de quase não haver estudos sobre a colônia brasileira em Nova York estimulou o historiador. Ao expor o fato de que o Brasil é o país da América Latina que mais exporta mão-de-obra para os Estados Unidos, o livro é uma prova da importância da história oral como área de pesquisa:

- A história oral tem de assumir um papel de disciplina moderna, capaz de propor políticas públicas - alerta o autor.

O que mais impressiona em Brasil fora de si, no entanto, são os momentos em que Sebe revela a opinião dos ''brasucas'' sobre o governo George Bush:

- Até dói dizer, mas, curiosamente, muitos brasucas acabam endossando a política de Bush. É quase inexplicável.

Dividido em quatro partes, o livro não deixa escapar nada da chamada Nova York brasileira. Desde de como essas mais de 300 mil pessoas chegaram à cidade, passando por seus meio de sobrevivência e a constante inquietação de se sentirem exilados, mesmo por opção, até a reação da colônia ao fatídico 11 de Setembro; tudo é tratado na obra.

 

- Qual foi o impulso para realizar a pesquisa de Brasil fora de si?

- Em 1998, ganhei uma bolsa de um ano para desenvolver pesquisas junto ao Oral History Office da Universidade de Columbia, em Nova York. Morando lá, inevitavelmente, fui atraído pela situação dos ''brasucas'' e percebi que havia uma trama invisível organizando um sistema de vida paralelo para uma multidão que hoje deve chegar a mais de 300 mil pessoas. Os brasileiros em Nova York se constituem no maior agrupamento de imigrantes fora do país e há um silêncio sobre este conjunto que só havia sido estudado, há mais de 10 anos, por uma brasilianista.

 

 

- Por que Nova York?

 

 

- Nova York me pareceu fundamental por vários motivos combinados, entre eles a fantasia de morar em uma cidade que é considerada a capital do mundo, por representar a síntese do ''sonho americano'' e por ser um centro de grande afluxo de imigrantes. Havia um outro aspecto importante: muitos estudos feitos sobre imigração tratam de Boston e achei que era chegada a hora de uma aventura mais ousada para demonstrar o grave problema da evasão de brasileiros. Hoje, com segurança, passamos de três milhões de brasileiros fora do país. Estudar Nova York seria uma forma de chamar a atenção para o fenômeno em geral.

 

 

- Quais são os principais motivos que levam os brasileiros a morar em Nova York?

 

 

- Como Nova York é uma grande cidade, dois fatores atuam nessa atração: o mito da oportunidade de trabalho e a possibilidade de recomeços. Falamos, portanto, de fatores objetivos, como sobrevivência e melhoria econômica, e subjetivos, como a busca de outros rumos para a vida. Como metrópole, Nova York atrai majoritariamente pessoas sozinhas ou que vão sem as famílias, para depois levá-las. Inegavelmente, há um outro fator importante: o orgulho de dizer que moram lá. Faz parte da ilusão emigratória ostentar um discurso vencedor e para isso nada melhor do que se valer de Nova York como cenário.

 

 

- E quais são os principais dilemas que os brasileiros enfrentam?

 

 

- O maior problema é a situação de ilegalidade. Pelo menos 70% dos ''brasucas'' não têm documentos para trabalho ou permanência nos Estados Unidos. O medo é, portanto, um componente obrigatório que combina a camuflagem com a mania de perseguição. Sem nenhuma tradição de emigração, os brasileiros acabam não renunciando à própria identidade nacional, e assim vivem repartidos, supondo que estão lá de passagem, provisoriamente, que um dia vão voltar com algum dinheiro. A situação de ilegalidade e o despreparo para a emigração levam a um fechamento cultural em que poucos aprendem inglês e acabam tendo de trabalhar entre si, e dessa forma aprendem que a decantada cordialidade dos brasileiros pode até funcionar, mas não lá nos EUA.

 

 

- O que significa ser brasileiro, especialmente fora do Brasil?

 

 

- As ondas migratórias, certamente, se constituirão em um dos temas mais importantes deste século. A América Latina e outros blocos integram o rearranjo demográfico motivado pela modernidade. Os centros economicamente bem situados são pólos de atração. Os brasileiros, nesse fluxo febril, arrastam consigo, além da inexperiência, uma espécie de culpa por romper com uma tradição histórica, revertendo o mito de que o nosso é o país que recebe imigrantes, mas que hoje passa a exportar gente. Os brasileiros que procuram os Estados Unidos são, cada vez mais, pessoas de estamentos sociais menos privilegiados. Com o advento do estatuto do jus sanguinis e a integração de muitos países na Comunidade Européia, a classe média tem mudado o eixo de preferência para estudos, tratamento de saúde e outros fatores, com uma recente preferência pela Europa.

 

 

- Os brasileiros fazem questão de preservar seus traços culturais ou incorporam totalmente a cultura americana?

 

 

- Os ''brasucas'', principalmente a primeira geração, mantêm os traços culturais brasileiros em geral. Comida, música, celebrações, jogos do Brasil funcionam como uma espécie de memória que alimenta a identidade de pessoas divididas entre o que são e o que gostariam de ser. Uma das coisas mais impressionantes foi ver, ao longo de 700 entrevistas, que a cultura americana não é assimilada além dos valores da sociedade de consumo. Menos de 1% dos entrevistados, por exemplo, tinha ido a um museu, visto um musical da Broadway ou pisado na Biblioteca Pública de Nova York.

 

 

- Como os brasileiros que moram em Nova York reagiram ao 11 de Setembro?

 

 

- Como para todo mundo, o 11 de Setembro foi um choque. A população de Nova York, em particular, experimentou no próprio espaço os efeitos imediatos do terror. Para os brasileiros, bem como para os demais imigrantes em sua maioria, deu-se um corte: ou rompiam com o sonho de migração e voltavam, ou, abdicavam da saudade crônica que tinham daqui e aderiam a novos valores, como o patriotismo. O mais notável efeito foi a constatação de que temos já gerações de migrantes. A mais velha tendia a voltar porque se reafirmou brasileira, a segunda - e, em alguns casos, a terceira - se julgava mais americana. Poucos voltaram, mas, de modo geral, em relação ao 11 de Setembro, a simpatia pela cidade cresceu. Em relação à política externa, não. As críticas afloraram.

 

 

- Mesmo após o ataque terrorista, a emigração de brasileiros continuou elevada?

 

 

- Continuou e continua. É lógico que nos primeiros momentos houve uma diminuição, mas logo isso foi compensado, e com graves riscos para os brasileiros, porque o acirramento do controle de entrada forçou outras estratégias. Em particular, cresceu a busca de ingresso via México e este é um dos mais dramáticos problemas que enfrentamos. Surpreendem, nesse processo, duas coisas: a visão curta do governo norte-americano, que não percebe que controlando cegamente os aeroportos estão motivando outro tipo de entrada, e a omissão do governo brasileiro, que não revela os números oficiais de ''evadidos'' e tem de se calar ante o inevitável fato de ser a emigração um dos mais favoráveis ingressos de divisas para o país. Basta lembrar, por exemplo, que atualmente a terceira maior fonte de ingresso de dólares no Brasil vem dos emigrantes.

 

 

- Qual a opinião dos ''brasucas'' sobre o governo George Bush?

 

 

- Até dói dizer, mas curiosamente, muitos ''brasucas'' acabam endossando a política de Bush. É quase inexplicável, mas principalmente os que conseguem legalização tornam-se conservadores. Há uma dose de contradição. Nota-se que, em relação à política brasileira, eles assumem a atitude contrária. Em Nova York, por exemplo, Lula teve a maior votação fora do Brasil. Aliás, os grupos organizados do PT em Nova York distinguem-se das demais organizações de ''brasucas'' por conseguir agregar pessoas em torno de causas. Mas os efeitos em relação à política americana não têm o mesmo alcance.

 

 

- Na capa do livro, observa-se a seguinte pergunta: ''Brasil, o que ainda estou fazendo aqui?'' Qual seria a sua resposta?

 

 

- A capa foi especialmente discutida com a equipe de produção e recaímos nessa camisa sem um corpo a sustentá-la pelo significado ambíguo que provoca. O mesmo pode ser dito da frase sobre o fundo negro. A intenção foi provocar indignação. Acho que conseguimos. Para mim, lugar de brasileiro é no Brasil e minha conclusão geral é que chegamos à hora da verdade: ou criamos condições para os brasileiros viverem aqui, ou assumimos que hoje somos o país da América Latina com maior número de pessoas vivendo fora.

 

 

- O livro mostra a importância da história oral como área de pesquisa. Como a história oral vem sendo trabalhada no Brasil?

 

 

- A história oral é importante, particularmente quando pensamos em história do tempo presente. O Brasil ostenta um espetacular crescimento de adeptos desse recurso, mas falta, sobretudo, agressividade e coragem para romper velhos parâmetros. A maturidade da história oral brasileira será um fato quando deixar de resultar em artigos teóricos e representar um espaço de denúncia dos problemas ocultados por códigos escritos e guardados em arquivos oficializadores de verdades míticas.

 

Revista Nova Escola - Setembro de 2004