Jornal Opção - Goiânia, Go 02 de março de 2005
  Entrevistas
 
José Carlos Sebe Bom Meihy
 
O ouro clandestino dos brasileiros ilegais

Defendendo a livre circulação de pessoas como complemento do livre comércio, professor da USP sustenta que emigração para os Estados Unidos não é ruim — ela representa, para o Brasil, quase 5 bilhões de dólares por ano

José Maria e Silva

A imagem dos brasileiros presos nos Estados Unidos, por tentarem entrar ilegalmente no país, remete ao deserto que eles tiveram de enfrentar, na divisa com o México, antes de caírem nas garras da polícia. À primeira vista, os brasileiros presos pareciam flagelados, não de uma realidade adversa, mas de uma ilusão perdida — o sonho de entrar nos Estados Unidos. Mas, por trás desse sonho gorado, há dados que assombram. “A saída de brasileiros não é um mal em si”, garante o historiador José Carlos Sebe Bom Meihy, 60 anos, professor titular da Universidade de São Paulo. Bom Meihy se refere ao outro lado da moeda — as remessas de dólares que os brasileiros fazem para o Brasil a partir dos Estados Unidos.

Segundo um estudo do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), divulgado no final de novembro, só no ano de 2002, os brasileiros que moram nos Estados Unidos remeteram ao Brasil 4,6 bilhões de dólares. Nos dez primeiros meses de 2003, os investimentos de empresas estrangeiras no Brasil foram de 9,1 bilhões de dólares. Ou seja, os brasileiros que moram nos Estados Unidos enviaram ao Brasil mais da metade dos dólares que todas as empresas estrangeiras investem no país. Com uma vantagem — não exigem subsídios oficiais, como isenção de impostos ou sessão de terrenos, como as empresas costumam exigir quando se instalam no país.

“É preciso regularizar esse fluxo de dinheiro”, defende o professor José Carlos Sebe Bom Meihy. Segundo o estudo do BID, a maior parte do dinheiro serve para custear despesas domésticas, mas entre 5 e 10 por cento desse montante serve para financiar pequenos negócios. O BID estima que, só em 2002, os países da América Latina foram beneficiados com 32 bilhões de dólares em remessas feitas pelos latino-americanos que trabalham nos Estados Unidos. No mesmo período, todos os investimentos estrangeiros no continente limitaram-se a 25 bilhões de dólares, um montante 28 por cento inferior ao ouro clandestino dos emigrantes. No caso do México, essa é a segunda maior fonte de renda externa do país (10,5 bilhões de dólares), perdendo apenas para a exportação de petróleo.

Em março, o professor José Carlos Sebe Bom Meihy lança o livro O Brasil Fora de Si, pela Editora Parábola, em que retrata a saga dos brasileiros que migraram para os Estados Unidos. Ele e sua equipe do Núcleo de Estudos Orais da USP entrevistaram 700 emigrantes brasileiros. Bom Meihy é autor de vários livros, entre eles: Introdução ao Nacionalismo Acadêmico: os Brasilianistas (Brasiliense, 1984), Carnaval, Carnavais (Ática, 1986), A Colônia Brasilianista: História Oral de Vida Acadêmica (Nova Stella, 1990), Canto de Morte Kaiowá (Loyola, 1991) e A Guerra Civil Espanhola (Ática, 1996), em parceria com Bertolli Filho. Nesta entrevista, concedida por telefone, na manhã de quinta-feira, 5, o professor disseca os conflitos diplomáticos entre Brasil e Estados Unidos e defende a política externa do governo Lula.

O sr. tem coordenado pesquisas sobre os brasileiros que entram ilegalmente nos Estados Unidos e prepara a publicação do livro O Brasil Fora de Si, pela Editora Parábola, que trata deste assunto. Já é possível delinear o perfil desses emigrantes?

O Brasil sempre é visto como um país que recebe imigrantes. Mas há um grande fluxo de brasileiros saindo do país. Não temos os números exatos, mas podemos calcular que entre 3 milhões e 5 milhões de brasileiros vivem fora do Brasil. É um número razoável, considerando a juventude do nosso fluxo migratório. Não temos a centenária tradição migratória dos países europeus, como a Itália ou Portugal. Nossa tradição de migração se inicia, basicamente, a partir dos anos 80, sobretudo depois do governo do presidente José Sarney e seus planos econômicos. Também o governo de Fernando Collor expulsou muita gente do país. E o governo de Fernando Henrique sempre foi muito conivente com essa saída. Nunca se fez nenhuma política para impedir isso.

O aspecto econômico, então, foi crucial para a saída de brasileiros?

A primeira desculpa usada é sempre o fator econômico. Mas temos outros fatores. Por exemplo: há pessoas que migram depois de desmancharem casamentos ou ter problemas familiares severos. Outro exemplo são as pessoas que estão fugindo da violência, ainda que não digam isso.

A influência cultural que o Brasil recebe dos Estados Unidos não contribui para essa migração?

Influenciou mais no passado, quando a gente ainda tinha aquela fantasia de que os Estados Unidos eram o país das oportunidades. Mas isso já está praticamente superado. As pessoas já sabem que é muito difícil vencer nos Estados Unidos. Hoje, o grande fator de atração são as redes de amigos e de parentes que estão lá e atraem outras pessoas. É o caso, por exemplo, de Criciúma, em Santa Catarina. O mesmo acontece com algumas cidades de Minas e, agora, começa a acontecer também com Goiás. Hoje, Goiás se tornou um pólo de pessoas que migram ilegalmente para os Estados Unidos. É o Estado que mais está crescendo em número de emigrantes.

A música sertaneja e as igrejas pentecostais são fortes em Goiás e têm muita influência da cultura norte-americana. Isso também não contribuiu para a emigração para os Estados Unidos?

São duas coisas separadas. Uma delas é a questão das igrejas. Como o Brasil não tem uma política de apoio aos brasileiros que estão nos Estados Unidos, as igrejas cumprem um papel muito importante no sentido de apoiá-los. Conheci, por exemplo, o caso de um garoto, por sinal goiano, que não conseguiu terminar a faculdade em Goiás e resolveu sair do país. Vendeu carro, tudo o que tinha, e foi para os Estados Unidos. Como todo mundo, pensava que, chegando nos Estados Unidos, sairia do aeroporto empregado. Depois de três meses, ainda não tinha arranjado emprego. Gastou todo o dinheiro que havia levado e arranjou emprego numa cozinha. No primeiro dia de trabalho, cortou o dedo, um corte profundo. O dono do estabelecimento não podia dar apoio a ele, porque ele estava ilegal. Então, o rapaz pegou o pedaço do dedo e foi na primeira igreja que encontrou. O pastor o levou ao hospital. Voltei alguns meses depois, e esse rapaz estava perfeitamente integrado à igreja. As igrejas funcionam como uma espécie de refúgio para os brasileiros. Já o caso da música sertaneja é diferente, porque não foi só ela que foi influenciada pela música norte-americana. A bossa nova também foi influenciada pelo jazz, assim como outros ritmos.

Quais os Estados brasileiros que fornecem mais emigrantes?

Minas Gerais, mas estabilizou. Já Estados como Paraná, Santa Catarina e, particularmente, Goiás crescem muito. O caso de Goiás é bastante específico, porque é um Estado não-industrial, que revela um perfil diferenciado de emigração. Muitos goianos não vão para cidades como Nova York, Boston, Chicago — vão para o campo, para as fazendas de amendoim, de algodão, em cidades como Atlanta, que têm fazendas em volta.

Quase todas as igrejas evangélicas brasileiras fazem questão de abrir um templo nos Estados Unidos, inclusive a goiana Comunidade Cristã, do pastor César Augusto. Esse fenômeno não se assemelha ao que acontecia na Antiguidade, quando líderes religiosos de todo o mundo acorriam a Roma?

Não tem nada ver. Estamos falando de um mundo industrial, em que há uma circulação de capital em escala mundial. Não tem nada a ver com Roma, com essa memória anterior. Pelo contrário, tem a ver com o espírito empresarial, como hoje, em que qualquer indústria de moda brasileira quer ter uma filial nos Estados Unidos. Toda igreja evangélica brasileira quer ter uma sede em Nova York. O grande modelo disso foi a Legião da Boa Vontade, que estabeleceu uma sede portentosa em Nova York, na 5ª Avenida — hoje não, depois de todos os escândalos. As igrejas evangélicas são empresas. Elas se estabelecem materialmente, com sede própria, e gozam de isenção de impostos nos Estados Unidos.

O público das igrejas evangélicas brasileiras nos Estados Unidos são basicamente latinos?

No caso de brasileiros, não. Os brasileiros que emigram acabam guardando dinheiro para si, obsessivamente. Não são grandes doadores de dinheiro, não pagam dízimo, não dão muita esmola. Com isso, embora elas possam ter como alvo inicial o público brasileiro, as igrejas evangélicas acabam se dirigindo aos negros e demais latinos.

Por que Santa Catarina e Paraná, que estão entre os Estados mais desenvolvidos do país, têm esse fluxo migratório?

Há uma tendência muito grande de jovens que não terminam faculdade e acham que vão ter uma chance indo para os Estados Unidos. Esse é o perfil do Paraná e Santa Catarina. Muitos jovens vão porque não conseguem pagar escola.

Nos Estados Unidos, há muita diferença entre brasileiros e demais latinos?

Há uma enorme diferença. Lá se reproduz todo o imaginário nacional daqui. A rivalidade de São Paulo e Rio, por exemplo, continua muito exposta lá. Há momentos de neutralidade, como jogo de seleção ou show de artista brasileiro. Fora isso, não há nenhum senso de comunidade. Ninguém ajuda ninguém. Só nos casos de laços sangüíneos, que algumas vezes permanecem. Esses laços são mais mantidos entre os mineiros.

Os nordestinos guardavam a nostalgia do Nordeste. Isso ocorre com os brasileiros que vão para os Estados Unidos?

Sim. Na culinária. Nos Estados Unidos, brasileiro come comida brasileira, tanto que há muito restaurante goiano lá. A música também é outro depositário de memória. E a Rede Globo passou a cumprir um papel importante de manutenção da identidade dos brasileiros. A Globo funciona como TV a cabo nos Estados Unidos e apresenta novelas, noticiário.

Como é o lazer dos brasileiros que vão para os Estados Unidos. Eles encontram tempo para o lazer?

Brasileiro não gasta dinheiro nos Estados Unidos, a não ser para comprar produtos eletrônicos, que são uma verdadeira mania. Mas não gastam, por exemplo, em teatro. Apenas 1 por cento dos brasileiros que moram em Nova York já foi a teatro. Os brasileiros estão no maior conglomerado de teatro do mundo, mas não gastam com esse tipo de atividade, assim como não vão a museus. Eles economizam tostão por tostão para vir para cá. Com isso, o lazer deles costuma ser feito na igreja, onde participam de churrascos e outras atividades de lazer.

O sr. afirma que rede de conterrâneos contribui para o fluxo migratório. Se essas redes fossem desmanchadas, seria possível diminuir a emigração ilegal?

Não é tão simples. Por outro lado, nem sei se é desejável acabar com a migração. O direito de ir e vir é um direito inerente à condição humana. O que é preciso é estabelecer uma política para regularizar esse fluxo migratório. A saída de brasileiros não é apenas um mal. Desde que se estabeleçam vínculos de harmonização de relações. Toda essa tensão de agora acaba exigindo uma solução. Vamos sair dessa situação com uma política diplomática mais coerente.

O sr. acha possível essa legalização?

Creio que é possível, sim. Na campanha, o presidente Lula escreveu uma carta para os brasileiros que estão fora do país. Agora, eles estão cobrando ações do governo. Em Portugal, principalmente, há uma cobrança direta dos brasileiros que lá estão. E o montante de dinheiro enviado ao Brasil por emigrantes é muito alto. Recente estudo do BID, o Banco Interamericano de Desenvolvimento, mostra que, só em 2002, os brasileiros que moram nos Estados Unidos enviaram ao Brasil 4,6 bilhões de dólares. O país não ganha nada, diretamente, nesta transação. O governo poderia gerenciar isso, por intermédio do Banco do Brasil.

Como fazer isso diante da política do governo de George Bush, que tem sido muito criticada pelo Brasil?

A atitude do governo Bush não só é agressiva e injusta, como tem de ser enfrentada, como estamos fazendo. Essa reciprocidade é mais do que desejável. No momento em que se fala de Alca, de livre comércio, é fundamental falar, também, de livre circulação de pessoas. O objetivo de Bush é separar o que é econômico do que é social e demográfico. Temos que fazer o contrário disso. Como pensar no livre comércio sem pensar no livre trânsito das pessoas? Quer dizer, o dinheiro pode circular, mas as pessoas não podem? O ministro Celso Amorim, das Relações Exteriores, é muito consciente da responsabilidade de forçar uma política, como estamos fazendo. E isso é perfeitamente possível. Os Estados Unidos não vivem mais sem os imigrantes. Eles atingiram um nível de escolaridade tal, que ninguém vai trabalhar em cozinha, limpar banheiro. Esse tipo de serviço fica para os imigrantes.

E os cubanos em Miami? Bush ameaçou romper o fluxo de dinheiro para Cuba. Como ficou essa situação?

Os primeiros cubanos que chegaram aos Estados Unidos eram milionários, era a elite da corrupção cubana. Eles foram apoiados pelos Estados Unidos, não pagando impostos, como exilados políticos. E tiveram uma possibilidade de crescimento que nenhuma colônia teve antes. Eles têm que manter uma causa política contra Fidel Castro. E o que os une, o que dá identidade a esse grupo, é a aversão a Fidel Castro. Por isso, procuram manter muito viva essa identidade, rejeitando qualquer coisa que possa ser a favor dele, como o embargo econômico, por exemplo. Mas o fluxo de emigrantes cubanos em direção aos Estados Unidos é muito alardeado. Basta cinco cubanos saírem do país, para os jornais fazerem muito barulho. Os cubanos vão para os Estados Unidos em fluxo pequeno. Só para se ter uma idéia de que isso é um produto de mídia, de imprensa, saem do Brasil 120 brasileiros por dia para ir para os Estados Unidos, mas a imprensa não publica nada. Agora, repito, se cinco cubanos saem de Cuba para Miami, a imprensa mundial presta atenção. Há um teor político muito grande nessa percepção.

Se os cubanos tivessem o direito de sair de Cuba como os brasileiros, esse fluxo migratório não seria muito maior?

Acho que não. O cubano é muito nacionalista, gosta muito de Cuba. Mesmo os velhos cubanos que saíram, querem voltar. Isso não quer dizer que Fidel Castro não seja ditador. Ele é, sim. Agora, estou tentando ver como a mídia trabalha esta questão. Nós, brasileiros, temos de estar muito mais indignados com o nosso problema, que é seriíssimo, do que propriamente com o problema de Cuba, que virou assunto internacional há anos.

Há um grande fluxo migratório em direção aos Estados Unidos e Europa, o que tem implicações étnicas. Isso pode mudar a geopolítica do mundo no futuro?

Sem dúvida. Estive em Angola, recentemente, e imagine que, no aeroporto, em Luanda, tem uma fila para os estrangeiros, de um modo geral, e uma fila só para os brasileiros que vão trabalhar nas empresas brasileiras instaladas na África. E elas são basicamente três: a construção civil, a Igreja Universal do Reino de Deus e a Rede Globo de Televisão. Evidentemente, fatos como esse desenham uma nova política externa, e o governo Lula está atendo para isso, daí essa movimentação do Brasil em direção à Ásia e à África. O mercado muçulmano, por exemplo, é um mercado poderoso, movido a petróleo.

Os índices de natalidade da Europa decrescem e sua população tende a diminuir com o tempo, segundo muitos analistas. Enquanto isso, a população dos países de terceiro mundo continua crescendo. Como o sr. avalia isso?

Essa é uma tendência desde a Primeira Guerra Mundial. A Europa está encolhendo, demograficamente. E os europeus não querem trabalhar no pesado. Alemão não quer trabalhar limpando trilho, então a Alemanha precisa dos turcos. Na medida em que os turcos vão para a Alemanha, desenvolve-se uma ojeriza a eles, que é uma coisa bárbara. É mais ou menos o que acontece nos Estados Unidos. Com uma diferença: para alguém ser legalizado na Alemanha, é preciso que seja alfabetizado. Agora, imagine um turco sendo alfabetizado em alemão.

Esse cadinho de etnias nos países europeus não pode gerar novas formas de intolerância contra os imigrantes, que podem levar a um novo nazismo?

Acho que não chega a tanto, porque o mundo não tolera mais esse tipo de radicalismo. Mas, sem dúvida nenhuma, a intolerância está em pleno funcionamento. O que passam, por exemplo, os marroquinos na Espanha é uma coisa muito agressiva.

O Brasil acabou tomando o Acre da Bolívia e o Amapá da França, por conta dos trabalhadores brasileiros que foram migrando para essas regiões. Hoje, há um fluxo de imigrantes latinos na Amazônia, além da questão das etnias indígenas. Isso não pode ser um problema sério no futuro?

A Amazônia é um vazio de brasileiros e não temos tido uma política de apoio à presença de brasileiros lá. Está na hora de acordamos para isso. É preciso motivar o povoamento da Amazônia. A Amazônia inteira tem, praticamente, a mesma população do Estado de São Paulo. Isso não pode continuar assim. Enquanto não tivermos uma política definida, evidentemente os grupos avançam. E temos um outro problema grave se desenvolvendo pela frente, que é o caso dos brasileiros no Paraguai, os brasilguaios. Devemos ter cerca de 600 mil brasileiros no Paraguai, o que é uma força extraordinária. É um problema para o futuro.

No caso dos EUA, o crescimento do número de imigrantes no país pode levar à intolerância ou à integração da cultura latina no país?

O espanhol já é a segunda língua mais falada nos Estados Unidos. A presença da cultura latina é muito intensa, basta observar a música. E é uma coisa boa, positiva. A mistura é desejável, a mistura é sempre democrática. Acho que é isso que a gente tem que prezar.

Critica-se muito os Estados Unidos no Brasil, no entanto, os Estados Unidos não estão dando uma lição de tolerância, ao receber pessoas de todos os continentes?

Temos que separar a teoria do país da oportunidade, da democracia, da igualdade, da possibilidade material. De repente, todo mundo resolve ir para os Estados Unidos e eles não têm como absorver tudo isso. Temos que defender uma política regulada, de acordos, mas é difícil. Mais de 70 por cento dos brasileiros que estão nos Estados Unidos estão em situação ilegal. Basta multiplicar isso pelos demais países da América Latina, pela Índia, pela China, para vermos o quanto é astronômico o mundo dos estrangeiros ilegais nos Estados Unidos. Isso produz distorções sérias. Os brasileiros que lá estão, por exemplo, são considerados imigrantes invisíveis. São dóceis, porque estão ilegais, não podem ser vistos, pois seriam presos. Há uma domesticação do nosso imigrante, que não pode sair da linha. Não é que sejamos bonzinhos; somos bonzinhos para não dar na vista.

O sociólogo Pierre Bourdieu, no livro A Miséria do Mundo, publicado no Brasil pela Editora Vozes, analisa, entre outras coisas, o depoimento de imigrantes argelinos na França e mostra o preconceito que eles sofrem por parte dos franceses. O trabalho do sr. também se volta para esse problema?

Trabalhamos nesta linha de Bourdieu. No caso especifico, Bourdieu trabalha com imigrantes árabes em Paris. Ele pretende criar uma situação de política pública em relação a esses grupos. Nós também temos essa intenção em relação aos brasileiros que saíram do país. Tanto que somos muito procurados pelo pessoal de Brasília, do governo. Hoje, esses estudos são muito importantes, porque o que acontece é uma reorganização mundial, cultural. É o que Bourdieu chama de vingança das colônias. Os países que foram colonizados, “visitam” os impérios de outra forma. Os hindus foram colonizados pelos ingleses; hoje em Londres, há praticamente uma cidade hindu. É um fenômeno de reorganização de culturas, das populações.

Com a globalização, as políticas econômicas dos países já dependem bastante de órgãos diretivos mundiais, como o FMI. Juntando-se esse fato ao fenômeno migratório, não se pode ter de volta a idéia de governo mundial?

A “Europa” já significa a união de alguns Estados. E muitos países europeus já nasceram desse ordenamento de nações. É o caso da Espanha, por exemplo, um conjunto de nações que se reúne sob um Estado, com legimidade. Mas não podemos pensar que os nacionalismos culturais vão se dissolver. Eles se fortalecem.

Há diferenças mais fáceis e outras mais difíceis de aceitar. E as diferenças do mundo muçulmano em relação ao mundo ocidental parecem estar entre as mais difíceis de aceitar. O sr. não acha?

Por não conhecermos os costumes dos outros, nós os consideramos exóticos. Vemos como primitivos, rebeldes, fanáticos, o que, na verdade, é um produto cultural deles. Quando o conceito de democracia que interessa é o conceito de diferença. Só existe democracia onde as diferenças coexistem. Temos que conviver com o que alguns repórteres chamam de “fanáticos muçulmanos”, quando, na verdade, nós, para eles, é que somos diferentes.

É possível, professor, esse mundo idílico em que ninguém estranha a diferença do outro e a aceita completamente? Essa não é uma nova utopia que veio substituir antigas utopias que caíram em descrédito?

Primeiro, utopia é uma coisa alcançável, não é uma impossível. Eu detesto essa leitura negativa de utopia, como algo impossível. Detesto isso. Milito, trabalho, luto, exatamente para promover acordos, para estabelecer conhecimentos de diferença. Pensar que isso é uma impossibilidade é anular a gente. E muito menos é uma utopia que substitui outra. A história não se repete, é um processo dinâmico, com um futuro imprevisível e depende da nossa capacidade de fazer acordos, de negociar. Isso é política.

Em seu livro Perdão, África, Perdão!, a jornalista e monja Arcelina Dias, conta ter ficado indignada com os casais muçulmanos que viu num aeroporto do Oriente Médio: homens completamente ocidentalizados davam comida na boca de mulheres cobertas pela burca, de tal forma que elas tinham até dificuldade para comer. Mesmo sendo compreensiva com os costumes diferentes, a jornalista não deixou de se indignar com o que considerou machismo dos muçulmanos.

Na sua própria narrativa, há uma série de equívocos. O fumo, o tabaco, no mundo árabe, é muito mais antigo do que no mundo ocidental. Não é uma ocidentalização fumar. Pelo contrário, é uma reafirmação cultural. O tabaco está presente desde as Mil e Uma Noites. Isso só serve para mostrar o nosso preconceito. Ora, essa cena é machismo a partir da nossa percepção. Mas, a partir da percepção da mulher árabe, machismo é o homem fazer a mulher trabalhar, fazer a mulher ter posição na sociedade, que, ao ver deles, não são compatíveis com a beleza da sociedade, com a beleza reservada para o próprio marido. São mundos diferentes. Esse nosso estranhamento é uma percepção autoritária, impositiva, de alguém que é incapaz de compreender o outro e que vai cobrar do outro posições da nossa cultura. É por isso que a história oral existe, que Bourdieu existe — é para mostrar o outro. É uma questão de conhecimento. Temos que admitir que a grande descoberta, hoje, é a descoberta da nossa ignorância.

Os árabes tinham uma ciência muito avançada na Idade Média. Resgatar esse aspecto da história não seria uma forma de vencer o preconceito contra eles?

Sem dúvida, assim como é preciso mostrar a cultura indígena também. Ao longo da história, há três grandes momentos em que o Oriente se emenda no Ocidente. No século 11, temos Tarik invadindo a Península Ibérica, são os árabes chegando. Em 1454, temos os árabes tomando Constantinopla. E tivemos, agora, o 11 de Setembro, que é, outra vez, uma chamada de atenção do mundo árabe, que tem de levar à reflexão. Temos de pensar no mundo globalizado pensando também no outro lado, e o outro lado não é apenas o Japão, é também o mundo árabe, com todas as suas implicações. Como fazer isso, para o bem e não para o mal, é a grande ciência da política. Temos que aprender a tirar lições dessas coisas todas, através do conhecimento e da prática. Daí a importância de se fazer história viva. A história não é apenas um conhecimento do passado, mas um conhecimento do passado no presente.

Elio Gaspari está escrevendo um verdadeiro tratado sobre a ditadura militar, As Ilusões Armadas, do qual já foram publicados três volumes. E Roberto Pompeu de Toledo, da revista Veja, escreveu A Capital da Solidão, contando a história da cidade de São Paulo antes de sua transformação em metrópole. Como o sr. avalia a incursão de jornalistas na história?

Como em todo campo há maus jornalistas e bons jornalistas. No caso, são dois bons jornalistas. Vejo como uma coisa muito positiva. Agora, tanto o Elio quanto o Toledo têm formação de historiadores.

O sr. lança, em breve, o livro O Brasil Fora de Si, pela Editora Parábola, sobre os brasileiros que emigraram para os Estados Unidos. Fale um pouco da obra.

A proposta do livro é mostrar que os brasileiros, sem tradição de imigração, acabam levando um Brasil para fora e vivem fora do Brasil um Brasil que certamente não existe mais, que é o Brasil que eles deixaram. Trabalho com os brasileiros em Nova York, onde há cerca de 320 mil brasileiros. É a maior comunidade de brasileiros fora do Brasil. E, entre eles, há uma tendência ao empobrecimento. No princípio, iam os ricos; depois, a classe média; hoje, vão os pobres. Fiquei um ano na Universidade de Columbia, nos Estados Unidos, como professor visitante. E, para fazer a pesquisa, voltei nove vezes lá. Fiz 700 entrevistas, das quais 600 foram feitas nos Estados Unidos e as outras 100 com brasileiros que retornaram ao Brasil. São cinco anos de trabalho. Tive ajuda de uma equipe de 16 pessoas, que participam do Núcleo de História Oral da USP. Também fiz pesquisas com ex-favelados e sobre o suicídio dos índios, entre outras. Esse trabalho de história oral tem um viés político, de transformação da sociedade.

Quando se ocupa do presente a história não corre o risco de perder-se ou de confundir-se com outras disciplinas afins, como a sociologia e a antropologia?

O objeto do historiador não é a história, mas os historiados. Temos que humanizar o conhecimento, humanizar a história, fazendo com que ela deixe de ser uma coleção de conhecimento sobre o passado. A história há muito deixou de ser um conhecimento — é uma forma de saber. Temos que conhecer o outro para a política, para a polis, que é o mundo. Essa é a função do conhecimento. Se isso é história, geografia, antropologia, só interessa para uma discussão teórica. O conhecimento tem de servir para a melhoria da condição humana.