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ESTRANHOS NO PARAÍSO
Para TV, ligar a novela à alta de brasileiros que tentam entrar nos
EUA é "culpar a janela pela paisagem"
Globo nega que "América" estimule migração
FABIANO MAISONNAVE
ENVIADO ESPECIAL À CIDADE DO MÉXICO
O diretor da Central Globo de Comunicação, Luis Erlanger, disse ontem
que é "risível" atribuir à novela "América", iniciada em março, o
recente aumento de brasileiros que tentam chegar ilegalmente aos EUA.
"Isso é culpar a janela pela paisagem", disse Erlanger, em entrevista
por telefone.
Números divulgados ontem pela Folha revelam um aumento sem precedentes
de brasileiros tentando atravessar a fronteira México-EUA. Somente em
abril, 4.802 foram detidos em território americano, uma média de 160
casos diários. É mais de dez vezes na comparação com o mesmo período do
ano passado, quando houve 443 casos (15 por dia).
Erlanger afirma que nem sequer haveria tempo para alguém organizar a
viagem após o início da novela e que a abordagem foi elogiada até pela
Embaixada dos Estados Unidos no Brasil.
Questionado se, por outro lado, a novela não conseguiu inibir o fluxo
migratório, o diretor da Globo disse que "a função de uma novela não é
estimular nem desestimular a realidade".
Erlanger comparou o tema da imigração à forma como foi retratado o
universo das drogas durante a novela "O Clone", também de autoria de
Gloria Perez.
"No começo, fomos acusados de estimular o uso das drogas. Mas temos de
mostrar os dois lados, por que as pessoas são atraídas para isso",
afirmou.
O diretor da Globo disse que, diferentemente do tema da cegueira, a
imigração não é tratada como uma campanha social na trama, mas que, "por
princípio", Gloria Perez não quer estimular a ida ilegal de brasileiros
para os EUA.
Moralismo
Segundo ele, já foi amplamente divulgado que a tentativa da personagem
principal, Sol, não será bem-sucedida. "Como a sociedade brasileira, as
novelas da Globo são moralistas."
A influência de "América" tem dividido quem acompanha o tema da
imigração. Segundo a socióloga Teresa Sales, do Nepo (Núcleo de Estudos
de População da Unicamp), em entrevista publicada ontem pela Folha, a
novela é a responsável direta pelo aumento.
"Mesmo que a realidade mostrada na novela muitas vezes seja
desestimulante, as pessoas "filtram" a informação que recebem e ficam
apenas com o "glamour", da possibilidade de ganhar muito dinheiro e
mudar de vida".
O historiador da USP e consultor da novela global, José Carlos Meihy,
diz que não é plausível a ligação entre a novela e o aumento de
brasileiros que se arriscam na fronteira México-EUA.
"A decisão de uma viagem como esta é tomada ao longo de muito tempo e
demanda preparação -principalmente econômica. Como a novela ainda não
passou dos 40 capítulos, é arriscado pensá-la como detonadora de
qualquer movimento nessa direção", afirmou Meihy.
Erros
Para o autor do livro "Brasil Fora de Si", sobre brasileiros em Nova
York, a novela "acerta no atacado e erra no varejo" ao retratar a vida
dos imigrantes. "Acerta ao colocar o drama de tanta gente ao público,
passando a ser um referencial coletivo para pensar o problema", disse
Meihy.
"Os erros -e são muitos- decorrem de informações inverídicas. As
questões de indumentária, de trato intercultural entre "hispanos" e
brasileiros e a não-consideração da "mentira" como parte do discurso dos
migrantes são totalmente fora de propósito, mas isso é menor diante dos
acertos e, sobretudo, da colocação pública do problema."
Para dois diplomatas brasileiros que lidam com imigrantes diariamente, o
fato de a nova leva continuar vindo de regiões tradicionalmente
"exportadoras", sobretudo Minas Gerais, sugere que o fator mais
importante seja a rede de parentes e/ou amigos radicados nos EUA. No
máximo, na opinião deles, a trama da Globo servirá apenas como um
incentivo a mais.
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