ORELHAS

 

 

 

 

 

QUESTÕES PARA ANALISTAS
DO DISCURSO

Sírio Possenti

Pode-se conceber a análise do discurso como um conjunto de teorias sobre as restrições que o discurso sofre. Para essa teoria, é consensual que um discurso não circula em qualquer lugar, que não toma livremente uma forma genérica qualquer e que não é interpretado de qualquer maneira por qualquer um. De alguma forma, interessa-lhe especificar em que medida cada fator funciona como uma restrição sobre o discurso, seja sobre sua circulação, seja sobre sua interpretação.

A vertente que investiga o dispositivo social de circulação dos textos, sem preocupação direta com a questão do sentido, busca dar conta de um dos aspectos do controle que nossas sociedades exercem sobre os discursos.

Outra, que privilegia propriamente a questão do sentido, embora de alguma forma esteja também relacionada a formas de controle, tem a ver com a questão mais estrita do sentido, isto é, com os modos de significação do discurso, considerados aspectos como os implícitos, a opacidade da língua, a relação dos discursos com seu exterior etc. De certa forma, e cada uma a sua maneira, ambas as vertentes constituem-se em teorias e metodologias que se interessam por dissecar as diversas formas de restrições a que um discurso é submetido.

A ad sonhou com a possibilidade de fornecer um conjunto de critérios a partir dos quais se poderia ler objetivamente um texto. Para isso, no entanto, foi necessário selecionar os domínios em que esses mecanismos funcionassem mais uniformemente e pudessem ser objetivamente descritos. Daí o privilégio dos discursos institucionais, de longa duração. Mas não se pode abandonar a possibilidade de ler e analisar textos menos paradigmáticos.