|
I
|
Já
passou da hora de professores, gramáticos, dicionaristas, autores de livros
didáticos, elaboradores e corretores de provas de concursos, revisores e
outros profissionais envolvidos com a linguagem deixarem de considerar como
"erradas" tantas opções linguísticas definitivamente
incorporadas à gramática do português brasileiro, ocorrendo inclusive na
língua escrita mais monitorada, para não mencionar a literatura consagrada.
Este
livro faz uma defesa explícita do vernáculo brasileiro contemporâneo,
com base nos resultados obtidos em investigações realizadas por centenas
de pesquisadores nos últimos quarenta anos. Não tem mais cabimento
corrigir o que não está errado, punir o que não é crime, castigar quem
é inocente. O português brasileiro é a nossa língua materna. Temos de
ver e ouvir essa língua com olhos e ouvidos de brasileiros.
Não
se trata, porém, de querer abolir as formas tradicionais, clássicas, para
impor as formas inovadoras, diferentes das padronizadas. Quem quiser
continuar usando elas, que fique à vontade. Queremos apenas que as formas
alternativas de falar e de escrever sejam também consideradas boas,
bonitas e legítimas, e que sua análise e descrição sejam incorporadas
serenamente nos materiais didáticos.
Também
não se trata de propor um "vale-tudo" linguístico, como algumas
pessoas desavisadas (ou mal-intencionadas) vêm apregoando ultimamente nos
meios de comunicação. Se é verdade que o convívio social necessita de
normas, também é verdade que essas normas (numa sociedade democrática)
têm que ser renovadas e aperfeiçoadas periodicamente, para estarem a
serviço dos cidadãos (e não contra eles), para que todo cidadão se
reconheça nelas e queira segui-las.
Até
agora, porém, temos sido oprimidos por prescrições obsoletas, incoerentes
e autoritárias que muitas vezes contrariam o saber linguístico intuitivo
que todo e qualquer falante tem do bom funcionamento de seu próprio idioma.
E, pior que tudo, essas prescrições são usadas como instrumentos
autoritários de repressão e de exclusão social. Vamos fazer valer a nossa
língua materna! Vamos desarmar o nosso convívio linguístico!
|
|