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I
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Os
intelectuais brasileiros são incapazes de compreender e de aceitar que haja
variação linguística, dialetos regionais, sociais, profissionais, por
mais que esta variação seja mais evidente do que todas as outras, e
detectável em todas as línguas do mundo. Os intelectuais brasileiros leem
gramáticas e dicionários como os fundamentalistas leem suas Bíblias e
Corões: em seu nome discriminam e se riem dos "infiéis". Agem
como grandes preconceituosos e agentes de exclusão, supondo que há
relação direta entre variedades de linguagem e maior ou menor
sofisticação de pensamento, e imaginando, sem a menor autocrítica, que os
sofisticados são eles!
Os
intelectuais brasileiros, ao falarem de língua, misturam na mesma batedeira
estrangeirismos, neologismos, erros de grafia, solecismos, hipercorreções,
etimologias populares, mudanças de regência de fato já ocorridas, e que
eles mesmos incorporam, embora pensem que não, porque não se ouvem.
Este
livro acusa os intelectuais brasileiros de absoluta incoerência quando
tratam de questões de língua, de misturarem alhos com bugalhos, por
deficiência de categorias de análise, de serem absolutamente incapazes de
perceber que "há uma gramática dos erros", de errarem até mesmo
na caracterização estereotipada que fazem da fala popular. Vivem falando
dos grandes escritores, como se eles o fossem porque acertaram algumas
regências, como se os grandes escritores não se caracterizassem exatamente
por levarem a língua a seus limites.
Este
livro os acusa de serem incapazes da mais singela análise que já não
esteja pronta. É por isso que eles não têm autoridade para despejar suas
críticas — que têm como única fonte uma tradição cuja historicidade
desconhecem.
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