ORELHAS E CONTRA-CAPA - COISAS QUE TODO PROFESSOR DE PORTUGUÊS PRECISA SABER

 

I

 

 

CONTRA-CAPA

Para que ensinar português a brasileiros?

O professor que não sabe para que se ensina português a brasileiros acaba, por exemplo, dando aulas voltadas para a memorização da nomenclatura gramatical, mesmo tendo consciência de que isso não adianta para nada, pois seus alunos continuam escrevendo com muita dificuldade. A resposta a essa questão é essencial para compreendermos o papel do professor no ensino fundamental e no ensino médio.

Este é um livro escrito para professores de português, tanto os professores em formação, quanto aqueles que já estão em sala de aula. Ele traz informações, reflexões e provocações, como as que envolvem a pergunta acima.

A falta de consciência acerca das teorias subjacentes à prática pedagógica pode tornar o professor um mero usuário inconsciente de livros didáticos, um simples cumpridor de tarefas com um enfoque conteudista. Quando isso acontece, o professor, em vez de usar o livro didático, é usado por ele.

O que motivou a escrita deste livro foi a constatação da grande distância entre, de um lado, as pesquisas realizadas nas universidades e os livros teóricos sobre o ensino de português e, de outro, os professores de português do ensino fundamental e do ensino médio. Há muito ainda para ser dito aos professores de português de forma clara e direta, a fim de diminuir essa distância.

 

ORELHAS

O ensino de português tem sido o alvo de reflexões, debates e críticas ao longo das últimas cinco décadas. Desde os anos 1960, tem-se discutido a prática docente e o fracasso, ou o pouco sucesso, dos estudantes brasileiros quando se trata de leitura e de produção de textos. Fatores diferentes já foram apontados como responsáveis, ou corresponsáveis, por tal situação: o suposto déficit cultural das minorias e das camadas pobres da população, a falta de estrutura adequada nas escolas, o despreparo teórico dos professores.

O domínio da leitura e o domínio da escrita são competências essenciais para a maioria das atividades profissionais no mundo contemporâneo. Por isso a tarefa de ensinar alguém a se tornar um usuário mais competente do português é das mais sérias e delicadas. Delicada porque, se realizada sem sensibilidade às diferenças culturais, sociais e linguísticas que constituem o universo de uma sala de aula, jovens podem ser negativamente afetados, comprometendo o desenvolvimento de sua capacidade de uso e sua autoestima linguística e cultural. Séria por ser um instrumento político e ideológico em potencial: os textos lidos e as discussões travadas em sala contribuem para a formação dos indivíduos, ajudando os alunos a se tornarem cidadãos críticos ou indivíduos alienados.

Se os professores que costumam enfocar, quase exclusivamente, a gramática normativa e que costumam abordar apenas um gênero textual – a redação – no ensino da escrita, refletissem mais sobre a língua e sobre o ensino à luz da concepção interacionista, perceberiam a necessidade de mudar sua prática e algumas de suas crenças teóricas. Isso teria um impacto significativo na atitude dos estudantes em relação ao estudo de português, aumentando nossas esperanças de resultados mais positivos oriundos do binômio ensino-aprendizagem, apesar dos sérios problemas que se encontram fora do domínio da linguística, como a questão da falta de estrutura das escolas e a questão da exclusão social.

Enquanto os professores não adotarem a perspectiva pragmática de língua, o ensino de português se manterá, em muitas escolas brasileiras, no nível das sentenças isoladas, descontextualizadas, sem que se levem em conta os usos que os brasileiros fazem da língua. E se não se levam em conta os usos linguísticos, que se materializam em forma de textos, os fenômenos textuais acabam sendo negligenciados.