ORELHAS

 

 

 

 

 

 

Língua, texto e ensino
outra escola possível

Irandé Antunes

Uma professora me confessou que, ao voltar à sala de aula, depois de estar afastada por dez anos, constatou que se mantinha na escola a mesma programação de ensino da língua: cada uma das classes gramaticais — repetidas à exaustão, do fundamental ao ensino médio. Quase nada havia mudado nesse espaço de tempo, apesar de tantos avanços das teorias, respaldados pelas pesquisas mais contundentes e especializadas.

Parece que são dois caminhos paralelos, que nunca vão se encontrar: por um lado, os cientistas e pesquisadores, com suas investigações e achados; por outro, os professores, com suas atividades diárias de ensino. Cada um olhando para seu próprio mundo. A especialização fica confinada no espaço da academia e, assim, se torna patrimônio de poucos. O ensino continua preso às suas próprias justificativas e conveniências, e assim, vai-se reproduzindo nos mesmos perfis e parâmetros. Muitos dos temas mais atuais desenvolvidos pela linguística ainda são estranhos aos programas estudados nas escolas. Parece que ainda falta acontecer a mútua relação entre a teoria — que inspira e fundamenta a prática — e a prática — que realimenta e instiga a teoria.

Uma questão que se impõe diante de tais constatações tem a ver com o fosso existente entre os avanços teóricos das ciências da linguagem e a prática pedagógica do ensino de línguas; entre as orientações oficiais — pelo menos aquelas divulgadas por instituições dos governos — e o dia a dia da sala de aula.

O que falta, para que a produção científica dos pesquisadores, dos linguistas e pedagogos tenha mais força junto ao trabalho feito na escola? O que falta para que a teoria linguística consiga desinstalar a tradição (‘o modelo que se seguiu sempre’) como a única referência para a prática pedagógica da escola?