A
publicação, em 1972, de Padrões sociolingüísticos [Sociolinguistic
Patterns] representou o nascimento oficial de uma área dos estudos da
linguagem que, desde então, não tem parado de se desenvolver em todo o
mundo: a sociolingüística variacionista. Interessado, de início,
em desvendar os enigmas da mudança lingüística, William Labov
acabou revelando a complexa relação desse fenômeno, diacrônico, com
outro, sincrônico: a variação lingüística. As línguas
mudam porque variam – foi a revelação trazida por ele, ao resgatar
dos subterrâneos da Lingüística estruturalista os falantes e suas
interações sociais, elementos tidos como "perturbadores" pela
primeira grande escola de estudos lingüísticos do Ocidente, inaugurada
por Ferdinand de Saussure na primeira década do século XX. As línguas
mudam porque não existem "línguas": existem falantes de
carne e osso, vivendo em sociedades complexas, hierarquizadas,
heterogêneas, e que, eles sim, mudam as línguas — o que torna
impossível desvincular os fatos de linguagem dos fatos sociais.
A
sociolingüística variacionista traz, desde seu surgimento, a marca dos
conflitos políticos e ideológicos, uma vez que Labov criou um
instrumental teórico capaz de aniquilar o mito da "deficiência
verbal" das classes sociais subjugadas (e, no caso específico dos
Estados Unidos, dos
negros),
estabelecendo a lógica gramatical inegável dos dialetos considerados
"não-padrão", isto é, das formas de falar das comunidades
excluídas do poder e do controle social. O impacto dessas idéias tem
sido profundo, já que refutam consistentemente a milenar classificação
das formas lingüísticas em "certas" e "erradas", e
provam que a "língua padrão" (designada, no Brasil, com o
infeliz rótulo de "norma culta") é tão somente um construto
sociocultural e ideológico, que nada tem de intrinsecamente "bom",
"bonito" e "elegante", adjetivos que só recebe por
ser o modo de falar imposto pelas classes dominantes.