A
linguística se encontra em um estágio que pode ser chamado de "história
natural": estamos mais ou menos na situação da física antes de
Newton, quando ainda não havia um paradigma que norteasse a
interpretação dos fatos observados. Assim como os físicos daquela
época, os linguistas de hoje têm como tarefa principal levantar dados,
sistematizá-los e encaixá-los, quando possível, em teorias parciais
— em uma palavra, elaborar descrições.
É
urgente elaborar estudos amplos de grandes fatias da estrutura das
línguas. Esses estudos devem se concentrar em línguas particulares,
sem ceder à tentação de aplicar a uma língua a análise de outra. A
comparação entre as línguas, assim como a procura de universais, é
um empreendimento válido, mas só pode ser realizado em um segundo
momento. Não devemos comparar pequenas áreas da estrutura em diversas
línguas, mas fazer confrontos abrangen-tes de grandes porções das
estruturas. E isso não pode ser ainda realizado por falta de
descrições confiáveis de um número suficiente de línguas.
A
presente proposta pode ser rotulada de "cognitivista", por
aceitar a idéia de que o conhecimento da linguagem é parte do
conhecimento geral do mundo. Isso não quer dizer que não haja maneira
de distinguir um do outro. Mas quer dizer que se deve levar em conta os
resultados da pesquisa em áreas como a psicolinguística, a ciência
cognitiva e a neurolinguística, seguindo o princípio de que não pode
haver contradição entre o que se sabe sobre o conhecimento do mundo e
o que se sabe sobre a estrutura da língua, considerada esta como parte
do conhecimento do mundo.
Venho
trabalhando na formulação das idéias aqui apresentadas há vários
anos, e o texto, em sua forma presente, reflete os princípios que
atualmente norteiam meu trabalho de pesquisa. Nenhum dos princípios
aqui seguidos é definitivo, evidentemente; e como alguns deles são
controversos, espero que este livro venha a servir como ponto de partida
para alguma discussão.